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9
May

Agricultura inteligente: como IoT, robótica e IA estão atacando um dos maiores problemas do século

Ainda é cedo para a agricultura de precisão, mas dois projetos baseados no Reino Unido estão provando a viabilidade e valor do conceito.

 

A população humana no mundo atualmente está em torno de 7,6 bilhões, e projeta-se que atinja 11,2 bilhões até 2100. Nós vamos necessitar, portanto, de um sistema de produção e distribuição de comida que possa acomodar outros 3,6 bilhões de pessoas – que idealmente, enquanto consome o mínimo de terra adicional, deixa o menor impacto ambiental possível, em razão de manter as funções vitais do ecossistema e conservar a vida selvagem restante no planeta.
Isso é claramente um desafio, dado que cerca de metade das terras habitáveis do mundo tem algum tipo de agricultura – com uma grande proporção usada para agropecuária (figura A).

 

Em um estudo recente amplamente divulgado, Poore e Nemecek (2018) observam que uma mudança no consumo de carne e lacticínios teria grande efeito no sentido de aliviar a pressão nas terras agricultáveis e reduzindo o impacto ambiental: “Carne, aquicultura, ovos e laticínios usam ~83% das terras agrícolas e contribuem de 56% a 58% no fornecimento de alimentos, a despeito de prover apenas 37% de nossas proteínas e 18% de nossas calorias.”
Mudando para uma dieta que exclua produtos de origem animal, dizem os autores do estudo, 3,1 bilhões de hectares de terras agrícolas poderiam ser recuperadas (uma redução de 76%), enquanto haveria redução na emissão de gases de efeito estufa em 6,6 bilhões de toneladas métricas de CO2eq (redução de 49%), entre outros benefícios ambientais.
Evidentemente levará tempo para efetivar uma mudança maior nas preferências alimentares – primeiramente em países em desenvolvimento – e padrões globais de uso da terra, entretanto tecnologias emergentes como carne feita em laboratório pode desempenhar um papel cada vez mais importante aqui.
No lado das colheitas, grandes avanços foram feitos nas últimas décadas, e a tecnologia moderna está se preparando para entregar cada vez mais.
A produção agrícola pode aumentar de duas maneiras básicas: incrementando a produção por unidade de área (intensificação), ou pela expansão da área cultivável (extensificação). A produção de cereais tem sido largamente incrementada por intensificação pelos últimos 50 anos (figura B). Foram usadas apenas 16% mais terras em 2014 do que em 1961, por exemplo, enquanto a produção global de cereais aumentou em 280%. Durante o mesmo período, a população mundial aumentou 136%, o que significa que a produção de cereais por pessoa aumentou mesmo tendo a população mais que dobrado.

 

Esses aumentos aconteceram largamente pela Revolução Verde pós Segunda Guerra Mundial – uma gama de tecnologias e práticas agrícolas envolvendo variedades de colheita de alto rendimento, agroquímicos (fertilizantes, herbicidas e pesticidas), irrigação, e mecanização. A agricultura em escala industrial, muitas vezes usando cultivos geneticamente modificados (GM), tem indubitavelmente entregue muitos benefícios, mas também a certos custos. Isso inclui os altos níveis de aplicações (que podem se tornar poluentes se feitas de forma ineficiente), o desenvolvimento de resistência a pesticidas e herbicidas, e o uso de maquinário pesado, caro, e danoso ao meio ambiente.
Esses e outros problemas atraiu interesse em intensificação sustentável, em que a meta é aumentar a produção a partir das terras agricultáveis já existentes, minimizando o dano ambiental, mantendo a capacidade da terra de continuar produzindo comida, e também ajudando a preservar a biodiversidade.

 

O que é agricultura de precisão?

 

Agricultura de precisão, também conhecida como “agricultura inteligente,” ou “agricultura precisa,” é um componente chave da intensificação sustentável. Ela combina sensoriamento remoto, dispositivos IoT, robótica, big data analytics, inteligência artificial, e outras tecnologias emergentes em um sistema de colheita integrado de alta resolução.
Um dos maiores inconvenientes do uso de agricultura em escala industrial é o uso de máquinas grandes e pesadas, como tratores, pulverizadores e colheitadeiras, que compactam o solo e comprometem a capacidade das plantas cultivadas de desenvolver raízes saudáveis. A compactação do solo é um fator importante na desaceleração do aumento da produção que tem sido observada nas últimas décadas – aqui, por exemplo, no Reino Unido (figura C).

Outro inconveniente da produção agrícola em escala industrial é a pouca precisão. Por exemplo, quando agroquímicos são aplicados em locais usando sprays de muitos metros de largura, muitas vezes eles não acertam o alvo: não apenas é um desperdício, como também pode criar poluição ambiental, prejudicando organismos benéficos e comprometendo o funcionamento do ecossistema.
Esses e outros problemas podem ser resolvidos substituindo as grandes máquinas operadas por humanos por múltiplos dispositivos pequenos e autônomos, suportados por uma moderna infraestrutura de TI. A meta primária é “desbloquear” as curvas de rendimento de cultivo, como mostrado no gráfico abaixo.
Agricultura de precisão foi o assunto do relatório de Goldman Sachs de 2016, subintitulado Cheating Malthus with Digital Agriculture. De acordo com o banco de investimentos, um incremento de 70% no rendimento das culturas é alcançável até 2050 pela combinação de agricultura de precisão, aplicação de fertilizantes, irrigação e aplicações autônomas, com adoção iniciando nos mercados em desenvolvimento. Isso se traduz (sob certas supusições) em um mercado total tangível de US$240 bilhões até 2050, com os maiores componentes mostrados na figura D.
Claramente há muito o que ser explorado em agricultura de precisão – não apenas em termos de ajudar a alimentar um mundo mais sustentável, mas também, friamente, fortes oportunidades de negócios. Como prova, veja a recente aquisição em setembro de 2017 da empresa especializada em aprendizagem de máquinas Blue River Technology pela gigante de equipamentos agrícolas John Deere por US$305 milhões.
No restante desse artigo, examinaremos um par de startups baseadas no Reino Unido na vanguarda dessa revolução da agricultura.

Agricultura de precisão no Reino Unido

 

Small Robot Company é uma empresa inspirada e baseada no trabalho do professor Simon Blackmore na Harper Adams University. Ele tem trabalhado com a ideia de pequenos robôs ao invés de grandes tratores pelos últimos quinze anos ou mais,” conta o cofundador da SRC Ben Scott-Robinson ao ZDNet.
Um empreendedor com particular expertise em design de experiência de usuário e IA, Scott-Robinson reforçou o status emergente da agricultura de precisão no Reino Unido: “eu o ouvi no rádio [Blackmore] e me inspirei no que disse, então o contatei e perguntei ‘quais são as startups com as quais poderia me juntar no pequeno mundo da agricultura robô?’ Ele disse que não havia nenhuma, mas que eu poderia conhecer seu amigo Sam, que era muito interessado e trazia uma diferente perspectiva a respeito.”
“Sam” é outro cofundador da SRC, Sam Watson Jones, um fazendeiro e ex-consultor de gestão, que assumiu a história: “O negócio da agricultura é altamente consolidado, no momentos antes e depois das fazendas, e há somente algumas companhias que fornecem o maquinário e equipamento. Essa nova tecnologia é altamente prejudicial ao que eles fazem, e potencialmente canibal para seus negócios. Os fazendeiros também não estão clamando por essas tecnologias ainda – muito embora tenhamos falado com muitos deles nos últimos 12 meses, e 150 estão a bordo. Mas eles entendem que seu modelo de negócios está quebrado na maioria dos aspectos, primeiramente porque suas receitas são fixas: em nossa fazenda em Shropshire, as colheitas geraram a mesma receita que há 25 anos atrás, mas os custos para alcançar essas mesmas receitas têm aumentado significativamente.
“Os fazendeiros não têm uma visão clara de como sair dessa situação,” continua Watson Jones, “é por isso que se você seguir a imprensa agrícola, verá muito a respeito de subsídios, suporte do governo, conflitos entre supermercados. O que me uniu ao Ben foi compartilharmos uma visão positiva para a tecnologia que atualmente permite às fazendas funcionarem de uma maneira diferente, sob um modelo de negócios.”
“Quando começamos a olhar a respeito, a tecnologia me empolgou muito,” disse Scott-Robinson. “Mas quisemoss saber o que os fazendeiros pensavam a respeito – pois como todos sabem, eles não adotam novas tecnologias. Então Sam gastou bons oito meses entrevistando fazendeiros – as ‘Aga sessions,’ como chamamos – para saber onde eram seus pontos problemáticos, e explorar a ideia de robôs serem algo em que eles se interessariam.”
“O que veio à tona é que os fazendeiros não têm medo da tecnologia por si, embora alguns sejam um tanto reacionários; o que eles realmente temem é comprar algo que vá quebrar, e então fique encostado no seu galpão tomando poeira. Então uma das primeiras coisas que fizemos foi afastar a ideia de robôs legais e perguntar que modelos eles comprariam. Assim que viemos com a ideia de ‘farming as a service‘ – um aluguel por hectare, por ano base. Primeiro, todo o risco é tirado do fazendeiro, e segundo, eles podem testar como quiserem – talvez um campo, talvez 20 hectares – e verem se funciona. Quebrar essas barreiras de entrada e reduzir os riscos nos permitiu ter uma conversa realmente aberta, e eles foram incrivelmente positivos a respeito.”
O fato de Sam Watson Jones ser agricultor é outra vantagem para SRC. “Acho que é porque seria muito mais difícil de lançar se fôssemos um monte de tecnólogos que não sabem nada sobre como os fazendeiros trabalham e quais seus temores. É incomum – fazendeiros normalmente não fazem negócios com startups. Mas o ponto chave é que não estamos dizendo que esse é o fim para todos os usuários de tratores. Apenas perguntamos: ‘Para o básico do que vocês estão fazendo – que é plantar a semente, monitorá-la e cuidar dela o máximo possível – é o trator a melhor ferramenta de trabalho?’ A resposta ressoante, que todos concordaram, é que com a tecnologia disponível hoje em dia, não é. Há maneiras melhores para fazermos as coisas, e temos uma oferta interessante sobre como essa maneira melhor poderia ser.”
A SRC está desenvolvendo três robôs, chamados Tom, Dick e Harry. Tom é um robô de monitoramento de culturas e do solo, capaz de checar cada planta individualmente; Dick é um robô de pulverização e capina, e Harry faz covas e plantio precisos. Quando não está coletando dados no campo, Tom vive em um “canil”, onde recarrega e também faz upload de dados para WILMA – o sistema operacional guiado por inteligência artificial da companhia, baseado no Ubuntu. Dick e Harry são requisitados pela SRC quando necessário.
Essa é uma prévia do desing de Harry, robô de perfuração e plantio de precisão da Small Robot Company. Imagem: Small Robot Company
A chave em todo o processo são os dados digitais de alta resolução do solo e das culturas (via Tom), somada com a habilidade de agir nesses dados com resolução similar (via Dick e Harry). Muitas fazendas já têm mapas do solo (feitos por “um cara com um balde” como diz Watson Jones), tipicamente cerca de 200 amostras para um campo de 10 hectares. “Mas na verdade são falsas digitais,” segundo Watson Jones, “porque há apenas uma indicação aproximada de onde essas amostras vieram, e a área ao redor dessas amostras de solo é assumida como a mesma – ainda há muitas médias envolvidas.” Ele acrescenta: “não encontrei um único fazendeiro que com a mão no peito confie nesses mapas como pilar para tomadas de decisões em sua fazenda.”
“Em termos de nosso desenvolvimento, estamos dando passos significativos para ter um nível base de dados – muito mais preciso que qualquer outro existente na agricultura até o momento – e então, quando desenvolvermos Dick e Harry, fazendeiros estarão aptos a agir muito mais precisamente. “Tom (o robô de monitoramento) pode normalmente cobrir um campo de 20 hectares por dia, ou uma fazenda inteira em 1-2 semanas. “Plantas não se movem tão rápido,” observou Watson Jones, “então em termos de poder acompanhar as mudanças nas condições do solo e crescimento das ervas daninhas, poderemos ter uma visão próxima do tempo real sobre as culturas, como esperamos.”
Os dados são uma mistura de fotografias, infravermelho e imagens hiperespectrais. “Fotografia determina se a planta é de cultura ou erva daninha, infravermelho nos permite verificar a saúde das células da planta, e a imagem hiperespectral mostra os químicos no solo,” disse Watson Jones. “Nós estamos coletando um gigabyte de dados a cada 10 minutos ou mais, e uma das razões para Tom não ser mais rápido é que muitas informações são coletadas, e a velocidade das conexões de internet nas fazendas não permite simplesmente empurrá-las para a nuvem. É por isso que ele volta ao ‘canil,’ como chamamos, e carrega os dados fisicamente no servidor local.” Depois de uma passagem inicial pelo software de IA no servidor da fazenda, os dados principais são carregados na nuvem (também conhecido como “SRC central”).
O projeto da SRC de coleta de dados, treinando a IA e executando um sistema de operação através dos robôs, o “canil” e a nuvem receberam três anos de financiamento do Innovate UK em 2018. “A meta é reunir os dados e entender o que significam, indo de imagens e comandos a outros robôs, para que eles saibam onde ir, dando-nos uma solução de automação completa de ponta a ponta,” explica Watson Jones.
A aplicação de IA da SRC é desenvolvida por uma companhia chamada COSMONIO, que é especializada em sistemas de aprendizagem profunda e que rodam com pequenas quantidades de dados de treinamento – centenas ou “poucos milhares” de imagens ao invés de centenas de milhares. A IA roda no Ubuntu: “É uma plataforma fantástica com muita expertise e recomendações. Faz absoluto sentido para nós rodar nosso algoritmo robótico no Ubuntu,” Disse Watson Jones.
Rachel, protótipo de robô da SRC, usado para testar sistemas de controle e união de dados de treinamento de IA. Imagem: Small Robot Company
Quando ZDNet conversou com a SRC, na primavera de 2018, o protótipo da empresa, chamado Rachel, estava testando os sistemas para controle de robôs em ambiente externo rústico, e também coletando dados para treinamento de IA. “Durante o curso do período de crescimento, temos que entender como se parecem as plantas de trigo desde o momento em que estão saindo do chão e todo o caminho em diante até se tornar uma planta adulta, e aí poderemos determinar a diferença entre o trigo e as ervas daninhas,” diz Watson Jones. “Esse é o principal foco da Rachel – como berço de testes para a plataforma robô e também para juntar os dados de treinamento.” O protótipo atualmente usa um hardware Raspberry Pi, entretanto a SRC também considera um kit customizado em breve.
Como a SRC trabalhou nos designs de Dick e Harry, é claro que eles não são robôs diferentes, mas a mesma plataforma básica com diferentes acessórios. Sobre Harry, o robô de plantio, Watson Jones disse: “vencemos a concorrência com o Institution of Engineering and Tecnology no fim de 2017 para desenvolver uma maneira de plantar que não exija arado. Uma das razões dos tratores serem tão pesados é que eles precisam arrastar o arado através do solo, e como nosso ethos é ter veículos leves que não compactem o solo, necessitamos de um diferente tipo de plantio. Então ao invés de arar e depois semear usando uma plantadeira, queremos posicionar as sementes precisamente no solo usando uma técnica que não exija força de tração.”
O mecanismo de plantio preciso, desenvolvido em conjunto com o Manufacturing Tecnology Centre, em Coventry, é inspirado no equipamento de perfuração e plantio chamado haraka, feito para ser usado nos países da África subsaariana e Índia, disse Watson Jones, que o descreveu como “um mecanismo muito simples e muito inteligente.” O grande desafio técnico encarado pela SRC, ele explicou, é obter “o mesmo número de sementes no solo que um trator em um ciclo completo seguido de uma plantadeira, plantando em uma escala normal.”
Então o que vem a seguir no roteiro da SRC? “Estamos querendo testar o mecanismo do Harry, o que esperamos que aconteça com o plantio de trigo no inverno, em setembro – ou na primavera no próximo ano [2019] como segunda opção,” disse Watson Jones. “Nosso foco é provar conceito de perfuração e plantio, e então seguir com vários testes com parceiros comerciais para avaliar os benefícios.” (O mais recente protótipo do Harry foi revelado em 7 de novembro, na conferência Agri-Tech East REAP em Cambridge.)
E a longo prazo? “Estamos visando o lançamento comercial em 2021, recrutando um grupo de 30 fazendeiros que serão essencialmente nossos primeiros clientes,” disse Scott-Robinson. “Cada um deles nos paga um depósito de pré-venda de £5.000, e trabalhamos com eles para desenvolver todos os elementos de nosso serviço. Eles se tornam nosso grupo de fazendeiros conselheiros, e iremos constantemente nas fazendas, testando e obtendo feedbacks. Eles nos dirão no momento em que estarão prontos para que cobremos pelo serviço.”

 

O espectro da Brexit

 

Tomando uma visão mais ampla da agricultura no Reino Unido, o espectro da Brexit se torna cada vez maior, com problemas chaves que substituirão os subsídios agrícolas anuais de £3 bilhões na União Europeia, e possibilidade de um êxodo de mão de obra migrante vital à medida que a livre circulação terminar.
Dadas histórias assustadoras de vegetais apodrecendo nos campos querendo que trabalhadores os colham, por exemplo, robôs de colheita estão nos planos da SRC?
Mais recente protótipo do Harry, da Small Robot Company, na Agri-Tech East REAP Conference em novembro de 2018. Na foto, Belinda Clarke, diretora da Agri-Tech East, e Sam Watson Jones, cofundador da SRC. Imagem: Agri-Tech East.
“Eles estão no nosso roteiro, mas não em nosso plano inicial de três anos,” Watson Jones. “Hectares de fazendas aráveis onde crescem coisas que podem ser colhidas por uma colheitadeira – trigo, cevada, aveia, que é o que estamos diretamente visando – já usam uma quantidade muito pequena de mão de obra. Inicialmente, esses trabalhadores terão o papel de monitorar os robôs conforme eles circulam pelos campos, mas ao final, nossa mensagem é tentar e encorajar os fazendeiros a diversificar – seja adicionando valor ao que produzem, vendendo coisas sob suas próprias marcas, ou expandindo para outras indústrias. Podemos ajudar a incrementar o retorno econômico da fazenda.”
O problema subjacente, diz Watson Jones, é que os fazendeiros do Reino Unido estão produzindo essencialmente comodities, em um dos países mais caros do mundo para se produzir comodities, que não têm alto valor no mercado. “Pensamos que grandes partes podem ser automatizadas e feitas melhores por robôs. A mão de obra que sobrará terá de se adaptar à nova tecnologia, mas também pode ser usada em projetos que agreguem valor ao negócio agrícola geral.”
A respeito da preocupação sobre os vegetais apodrecendo nos campos, Watson Jones comentou que há um pequeno número de fazendeiros no setor que atualmente requerem muito trabalho manual para a colheita. “Penso que os robôs terão papel na colheita de coisas como alface e morangos, mas vai demorar, um caminho longo,” disse ele. “Uma das razões porque não iremos por esse caminho é que há quinze produtores de alface no Reino Unido, por exemplo – todos eles são grandes players, mas o mercado é bem pequeno. Eles também fazem as coisas de maneiras diferentes, então você será forçado a desenhar e desenvolver robôs caros sob medida para fazer algo muito específico – e de verdade, não se pode operar isso usando um modelo de agricultura como serviço.”
A adoção de robôs na colheita de legumes será mais lenta, acrescenta Watson Jones, pois necessita de tecnologia robótica mais avançada do que a que está sendo atualmente implementada. “O modelo que estamos sugerindo será mais rápido e fácil de adotar,” prevê.
Sobre o assunto dos subsídios da União Europeia, a probabilidade é de uma “grande fatia” do orçamento anual de £3 bilhões vá desaparecer após a Brexit, diz Watson Jones (em abril de 2018). “No momento a Anderson – uma consultoria de agricultura – sugere que 85% das fazendas aráveis no Reino Unido não são lucrativas sem subsídios. Então, como foi sugerido, metade desses dois terços de subsídios desaparecer, muitos fazendeiros precisarão de mudanças radicais em seus modelos de negócios afim de permanecer à tona. Pensamos que podemos resolver esse problema efetivamente.”
Outro projeto emergente da Harper Adams University, em colaboração com a Precision Decisions, especializada em serviços de agricultura de precisão, é o HandsFree Hectare, lançado em novembro de 2016 com um objetivo simples: “crescer e colher um hectare de cereal; tudo sem colocar um pé sequer no campo.”
A ideia é alavancar a tecnologia open source e o maquinário pequeno já disponível, adaptando esses componentes nos laboratórios universitários para operação autônoma em campo. Uma safra de cevada de primavera seria semeada em março de 2017, combinando agronomia remota e aplicação autônoma de insumos entre abril e julho de 2017, e colhida em agosto/setembro de 2017.
Em fevereiro de 2017 a equipe de engenharia da HFHa tinha testado em campo um sistema de automação em um veículo elétrico all-terrian, e estava pronta para adaptá-lo no (relativamente pequeno e leve) trator selecionado para furar o solo e pulverizar a plantação, junto com um sistema de segurança baseado em um scaner laser.
Em junho o trator autônomo – usando um piloto automático de drone baseado em GPS – aplicou com sucesso herbicida pré-semeadura e perfurou o campo para plantar as sementes de cevada da primavera. Com as sementes plantadas, o próximo desafio era a agronomia – usando um veículo terrestre para colher amostras de solo e plantas, fotos e um drone na captura de imagens multiespectrais para acompanhar o crescimento das plantas. Vários agroquímicos (fungicidas, herbicidas e fertilizantes) foram aplicados com base nessas informações, bem como a combinação (relativamente pequena e leve) preparada para a operação autônoma conforme o tempo da colheita se aproximava.
A colheita de cevada da HFHa foi concluída em setembro, com resultado em torno de 4,5 toneladas por hectare. “Esse projeto visava provar que agora já não há razão tecnológica para que o campo não possa ser cultivado sem humanos trabalhando diretamente na terra, e fizemos isso,” disse Martin Abell, pesquisador de mecatrônica da parceira da HFHa Precision Decisions, em declaração. “Nos propusemos a identificar as oportunidades para a agricultura e provar que é possível cultivar terras agrícolas autonomamente, o que tem sido o grande sucesso do projeto,” Abell acrescentou. “Alcançamos isso com um orçamento impressionantemente baixo comparado com outros projetos que pretendem criar veículos agrícolas autônomos. O custo total do projeto foi de menos de 200 mil libras, bancado pela Precision Decisions e Innovate UK. Usamos maquinário que era facilmente disponível para compra pelos fazendeiros; tecnologia open source; e um piloto automático de um drone para o sistema de navegação.”
O projeto HandsFree Hectare recebeu bastante atenção da mídia (tanto do ramo como da mídia comum), levando ao financiamento pela Agriculture and Horticulture Development Board (AHDB) para a segunda safra – desta vez, o trigo do inverno. A meta para 2017/2018 era incrementar a produção através de maquinário mais preciso e melhorar a agronomia remota; depois de um falso início afetado pelo clima, o trigo de inverno foi plantado com sucesso e semeado em novembro de 2017. Fertilizante, fungicida e herbicida foi aplicado até abril/maio de 2018 e sensoriamento remoto se encarregou dos esporos das doenças fúngicas redutoras da produção de trigo (especialmente septoria e ferrugem amarela). O trigo foi colhido em agosto de 2018, com um rendimento estimado (via drone, por telemetria) de 6,2 a 7,8 toneladas por hectare (o valor final acabou sendo 6,5t/ha). Tudo, de novo, sem que um humano ponha o pé no campo.
O HandsFree Hectare ganhou vários prêmios, incluindo a categoria Future Food no BBC Food & Farming Awards em junho de 2018.

 

Agricultura inteligente e cobertura móvel

 

Dispositivos agrícolas de IoT precisam enviar e receber dados por conexões rápidas e confiáveis, o que significa que a disponibilidade de banda larga móvel em áreas rurais é um fator crítico caso projetos como Small Robot Company e HandsFree Hectare forem ampliados.
De acordo com o Connected Nations Report 2017, da Ofcom, serviços 4G estão atualmente disponíveis em 61% da área aberta da Inglaterra em 60% da Irlanda do Norte, com Gales (25%) e Escócia (17%) muito atrás mesmo com dessa cobertura moderada.
Para melhorar a cobertura móvel em áreas rurais, a Ofcom anunciou planos de impor obrigaçãos às operadoras de comunicação móvel, pedindo um espectro de 700MHz (parte da nova geração de serviços móveis 5G), que será concedido no segundo semestre de 2019 e lançado em 2020. A estratégia de utilização de 5G da Ofcom é delineada em seu relatório Enabling 5G in the UK.
Em maio de 2018, 56 membros do Parlamento do Grupo Parlamentar de Todos os Partidos (APPG) em Serviços Rurais assinaram uma carta pedindo a Matt Hancock, (então) secretário de Estado para assuntos digitais, cultura, mídia e esporte para assegurar que 95% do Reino Unido tenham cobertura móvel de todas as quatro operadoras – Three UK, Vodafone, EE e O2 – até o final de 2022.
A carta argumenta que as forças de mercado não são suficientes para atender as necessidades das áreas rurais, e essa regulamentação – obrigatoriedade de cobertura por parte das operadoras – é necessária. O AAPG também expressou preocupação de que a condição de 700MHz da Ofcom seja aquém da ambição de 95% de cobertura. Assim como repensa essas condições, a carta sugeriu que as regras de transparência sejam modificadas para prevenir que operadores de redes móveis se escondam por trás da “confidencialidade comercial” ao se recusarem a divulgar os planos de operação.

 

Perspectiva

 

Continua cedo para a agricultura de precisão, no Reino Unido e em qualquer lugar. Mas há claramente enormes oportunidades para o cultivo usando equipamentos autônomos pequenos, leves e que danifiquem menos o solo, o que geralmente é mais gentil para com o meio ambiente, e libera os trabalhadores rurais para contribuir em outros projetos que agreguem valor para a produção das fazendas. Projetos como Small Robot Company e HandsFree Hectare estão na fase de teste de conceito. O próximo passo é colocá-los no mercado e ampliá-los.

 

Sobre o artigo

Este artigo é uma tradução livre do original Smart farming: How IoT, robotics, and AI are tackling one of the biggest problems of the century.
Photo by Bence Balla-Schottner on Unsplash

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